Durante 13 anos, José Alencar travou uma árdua batalha contra o câncer, até que a doença não mais respondeu aos tratamentos. Se ainda estivesse vivo, o ex-vice-presidente da República teria ao menos o alento de saber que outros pacientes acabam de ganhar uma esperança de cura. A boa notícia vem da Faculdade de Farmácia da Queen’s University Belfast, na Irlanda do Norte. Em colaboração com pesquisadores do Instituto Almac Discovery, a cientista e professora Tracy Robson desenvolveu uma terapia que já é considerada uma revolução. Em vez de atacar o câncer diretamente, a nova droga combate a raiz do mal: ela previne o crescimento de novos vasos sanguíneos no tumor, privando-os de oxigênio e de nutrientes e impedindo sua evolução.
A arma criada por Tracy teve como ponto de partida a FKBPL. “Trata-se de uma proteína natural encontrada dentro das células, que tem uma atividade natural contra os vasos sanguíneos do tumor", explicou ao Estado de Minas, por e-mail, a autora do estudo, publicado pela revista científica Clinical Cancer Research, da Associação Americana para Pesquisa do Câncer. “Essencialmente, a FKBPL detém o desenvolvimento de novos vasos — um processo chamado de angiogênese, que não ocorre em adultos, mas apenas em pessoas acometidas pelo câncer”, acrescentou. De acordo com ela, tais vasos dependem do sangue para garantir o crescimento tumoral. “O combate ao crescimento de novos vasos sanguíneos leva as células do tumor à morte”, comenta.
A medicina dispõe de outras terapias cujo alvo são os vasos sanguíneos do tumor. No entanto, nada se compara ao método projetado por Tracy — a nova técnica usa um caminho totalmente diferente e já se mostrou uma alternativa eficiente a tratamentos atuais que não estejam funcionando. “Desenhamos um pequeno peptídeo (biomolécula) baseado na região ativa da proteína FKBPL. Nossa droga usa um receptor chamado CD44, presente na superfície celular, para invadir aquelas células necessárias para o crescimento do vaso sanguíneo do tumor”, afirma a norte-irlandesa. “Uma vez lá dentro, o medicamento interfere em uma proteína envolvida na migração das células, prevenindo a angiogênese”.
Multieficiência O estudo, ao qual o EM teve acesso, assegura que a “eficácia antitumoral foi determinada em dois tumores humanos que cresceram em ratos com grave imunodeficiência”. O artigo revela que a área responsável pelo potencial antiangiogênico foi identificada como um peptídeo de 24 aminoácidos, cuja sequência foi sintetizada e usada como medicamento.
Como a nova droga funciona alvejando os vasos sanguíneos ainda em formação do tumor, Tracy Robson aposta que ela seja apropriada a uma vasta gama de tumores, inclusive sólidos. Até agora, ela e sua equipe comprovaram boas respostas para os cânceres de mama e de próstata. “O projeto está em desenvolvimento pré-clínico e a primeira fase dos testes clínicos deve começar em 12 meses. Se eles forem bem-sucedidos, o tratamento deverá estar disponível em todo o mundo nos próximos cinco ou 10 anos”, estima a cientista.
De acordo com Tracy, os atuais tratamentos antiangiogênicos não são eficazes contra todos os tumores. Muitas vezes, quando demonstram eficiência, esbarram na resistência do organismo. “Como essa nova abordagem utiliza um mecanismo antiangiogênico diferente, esperamos que funcione com um padrão de tumores, diferentemente de outras drogas. É provável que nosso método seja complementar a outras terapias, estendendo o leque de abordagens possíveis”, revela a líder do estudo. Stephe Barr, presidente da Almac Discovery, destaca o caráter inovador da pesquisa. “Trata-se de um exemplo de primeira classe de colaboração entre a universidade e a indústria para produzir uma nova técnica para tratar o câncer, com chance real de ajudar pacientes”, diz.
Outra pesquisa, divulgada pelo 102º Encontro Anual da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, sustenta que a análise de mais de 10 trilhões de pares-base de sequências de DNA de tecidos do tumor de mama e de mulheres saudáveis rendeu informações valiosas sobre as variantes genéticas da doença. O norte-americano Matthew J. Ellis, professor de medicina da Washington University, disse acreditar que a descoberta levará a diagnósticos mais precisos, capazes de propiciar resultados melhores no tratamento do mal.
| À esquerda, os traços brancos são os vasos sanguíneos dentro de um tumor em pleno crescimento; à direita, na imagem dos mesmos vasos depois do uso da nova substância, é possível notar claramente como foram rompidos Para maiores detalhes visite: http://clincancerres.aacrjournals.org/content/early/2011/02/25/1078-0432.CCR-10-2241 |
